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RPG e Arte

itiro — ter, 22.07.2008 - 13:33

RPG e Arte, RPG é Arte.

"Arte (Latim ARS, significando técnica e/ou habilidade) geralmente é entendida como a atividade humana ligada a manifestações de ordem estética, feita por artistas a partir de percepção, emoções e idéias, com o objetivo de estimular essas instâncias de consciência em um ou mais espectadores."1

Eu sei, você está provavelmente pensando: "senta que lá vem a história". Quando a coisa começa com uma citação de enciclopédia ela costuma ir looooooonge. Infelizmente não posso prometer conscisão e objetividade neste artigo (e você acabou de testemunhar o outro efeito colateral de artigos que começam com citações de enciclopédia, o uso de palavras longas e cheias de encontros consonantais, esse pessoal se acha mesmo).

Para os sem paciência, eu começo com a versão resumida: o que acontece em nossas mesas de jogo é Arte. Se não quiser continuar lendo, fique a vontade para parar aqui. Não posso prometer algo muito curto ou claro por estar ainda tateando meu caminho neste terreno (e também por tropeçar nas palavras e deixá-las espalhadas pelos cantos).

A idéia é antiga e já cruzei com mais de uma pessoa tratando do assunto na internet. RPG é uma manifestação artística, mas a arte não está nos livros e sistemas, ela acontece durante os jogos.

Um grupo se reúne e usa sua criatividade para estimular sensações e sentimentos nos outros participantes. Se esta é a definição, então uma sessão de RGP é Arte, simples assim e sem muitos rodeios. Se você nunca jogou não vai entender, e foi este sentimento que me fez ter a impressão de que RPG é Arte pela primeira vez.

RPG é uma coisa que precisa ser experimentada, eu posso explicar quanto eu quiser, você pode ler os capítulos "O que é RPG?" de todos os livros do mundo e mesmo entendendo como uma sessão de jogo funciona não vai saber o que é RPG antes de testar (eu costumo comparar RPG a sashimi, mas para evitar discussões intermináveis com as pessoas de algumas listas de e-mail vamos deixar isso de lado por enquanto).

O mesmo acontece com a Arte. Você pode ler todas as resenhas que quiser sobre uma banda, mas enquanto não ouvir a música não vai entender o que acontece.

Mas, ao contrário das formas mais conhecidas de arte, o RPG não tem um produto para mostrar. Na verdade, assistir uma sessão de jogo não é algo tão estimulante quanto participar de uma. A mágica acontece durante o jogo, e os espectadores são os próprios participantes.

Por conta disso, tudo faz parte do jogo. As piadas, a interpretação das regras,os salgadinhos, os bordões das personagens, decidir os sabores da pizza, regras alternativas, etc. Essas coisas são particulares de cada grupo e são muito importantes no resultado final.

Rolar dados e mais dados até o monstro cair morto não parece ser algo que demanda muita interpretação, o que os críticos deste tipo de coisa não percebem: o objetivo naquela hora é sentir o gosto inconfundível da vitória, o coro angelical do mestre dizendo: "o gigante caiu". Assim como algumas outras pessoas não conseguem entender como um grupo pode passar a noite inteira brincando com o filho de um NPC genérico enquanto a missão principal do jogo é esquecida.

Neste contexto, quase nada que acontece em uma mesa de jogo pode realmente ser considerado errado. Cada sessão de jogo é um acontecimento único e vai ser conduzido de acordo com o sistema de regras particulares daquele grupo. Você pode não concordar ou gostar do que está acontecendo naquela mesa, mas não pode dizer que esteja errado, os jogadores decidiram participar daquilo e fazem parte daquele jogo eles estão no controle sobre o que está acontecendo. São eles os únicos com o direito de dizer que algo está errado.

Os livros, dados, mapas e todo resto de coisas são instrumentos, ferramentas para jogar. Estes podem e devem ser criticados.

Eu acredito que isto merece ser mais desenvolvido, só não sei direito para onde ir depois disso aqui. Alguma sugestão?


1 - Wikipédia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Arte)

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RPG, experimentação

Camilo — ter, 29.07.2008 - 11:31

É bom ver reflexões menos descritivas e mais conceituais sobre RPG. Você está de parabéns.

Gostaria de saber sua opinião sobre um post meu,

http://camilorpg.wordpress.com/2008/07/24/

explicando-rpg-como-experiencia/

Tento explicar RPG como uma experiência também, mas não falo sobre arte.

Quanto à minha opinião sobre seu post, acho o seguinte:

a) identificar arte com o ato de experimentar talvez não seja um bom caminho, pois experimentamos muita coisa que não é arte;

b) de certa forma, certos quadros, romances e músicas não são experimentados, mas admirados, pois há um distanciamento entre observador e objeto (isso, contudo, é muito discutível);

c) também usamos nossa criatividade para provocar sensações, pensamentos, etc. nas pessoas em atividades não-artísticas.

d) como criticar uma partida a não ser de dentro dela mesma, pois o RPG não tem platéia? Isso é um tópico interessante que seu texto me fez pensar sobre. Poderíamos criticar partidas, sistemas e cenários, ou apenas sistemas e cenários? Quem, afinal, poderia criticar uma partida e em que termos uma crítica assim teria validade?

Gostei de seu texto principalmente porque antes não havia pensado nessa questão da crítica à partida.

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Experiência do RPG

itiro — qui, 31.07.2008 - 09:27

Perceber o RPG como uma experiência foi o estalo para começar investigar o RPG como arte, procurar algum tipo de embasamento para a afirmação que eu eu já tinha ouvido da boca de outras pessoas mas que ainda não tinham me convencido.

Como disse no post a coisa toda está engatinhando, não entendo o suficiente de arte para conseguir dar um parecer mais firme sobre o assunto, mas a coisa toda me parece promissora.

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Platéia

Ricardo — ter, 29.07.2008 - 17:52

d) como criticar uma partida a não ser de dentro dela mesma, pois o RPG não tem platéia?
Acho eu que a platéia é o próprio grupo, que se diverte (talvez não em todos os casos) vendo as ações do(s) jogador(es) da vez. Que está(ão) sob o foco da narração ou "atuando".

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  Você pode trabalhar a

felipekopp — dom, 27.07.2008 - 12:16

 

Você pode trabalhar a questão do RPG ser o representante moderno da milenas arte da contação de histórias e da dramaturgia. Acho que seria um bom começo.
Agora uma observação que eu quero fazer:
Aristóteles, em a Poética, diz que na arte dramática o espectador é atingido pela catarse (uma espécie de purificação da alma), porque ele é confrontado com ações humanas, porém vividas por heróis ou divindades. Criando um tipo de "distância-próxima" (sic).
No RPG a catarse tbm é alcançada, pois os jogadores representam "heróis" em mundos que as vezes parecem ser distantes da sua realidade, porem vivenciando ações que estão próximas do seu, e mais do que assitir a eles, ele vivencifica essas emoções e é confrontado com os problemas, é beneficiado pelos seus méritos e punido por suas vilezas, e isso td dentro do jogo, vivendo como um "outro". Novamente temos a distância quanto as personagens, mas a proximidade quanto as situações. Então no RPG tbm temos a possibilidade de atingir a catarse, logo, é também uma arte.
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Contar histórias e dramaturgia

itiro — seg, 28.07.2008 - 09:52

Felipe, não sei bem se o RPG é a "modernização" do contar histórias e da dramaturgia, tenho a impressão de que o RPG está mais para a "Performance", principalmente pelo fato dos espectadores serem também participantes da obra.

Quanto a catarse sim, eu acredito que ela possa ser alcançada no RPG, mas não sei se podemos dizer que porque atingimos isso pode ser considerado arte.

Por exemplo: seu time do coração está na final de um grande campeonato pela primeira vez na história. a final vai acontecer em dois jogos e ele perdeu o primeiro por 1 a 0. O único resultado que interessa é uma vitória por 2 gols, já que o empate dá o título ao adversário.

O jogo começa e em 5 minutos seu time faz o primeiro gol, apesar dos ataques insistentes e da pressão constante o goleiro adversário, numa grande jornada, salva tudo e o primeiro tempo acaba desse jeito.

No intervalo o agourento a seu lado coça a cabeça e diz: "quem não faz, toma", todo mundo manda o cara calar a boca, mas a desconfiança foi lançada....

Começa o segundo tempo e o craque do time, numa distração, perde a bola, no contra-ataque o time faz um gol e deixa tudo empatado. O jogo continua e o desespero começa a mostrar suas garras, o time controla a bola mas não consegue ameaçar a meta adversária e toma alguns sustos com outros contra-ataques.

Aos 44 min do segundo tempo num lance confuso a bola bate em 5 jogadores e finalmente entra, 2 a 1, um gol separa o time do título tão sonhado. 4 minutos de prorrogação, 49 min e 36 segundos, escanteio e último lane do jogo, até o goleiro na área adversária, cruzamento e o craque do time numa linda bicicleta faz o gol do título.

Quem viveu situação semelhante sabe que a experiência é catártica. Algumas pessoas dizem mesmo que um bom jogo de futebol equivale a um bom drama, e mesmo assim tem gente que não parece aceitar muito bem a comparação.

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Lenha na fogueira

mczanini — ter, 29.07.2008 - 12:18

(Não entendo nada de arte, e muito menos de catarse, mas deu vontade de levantar umas bolas diferentes com o pouco que já li.)

Lembro de uma aula de Introdução aos Estudos Literários, justamente sobre o teatro grego, que nos levou a perguntar se teríamos como investigar, hoje, o que era a catarse. Já ouvi dizer que seria impossível para nós entender de fato o que era isso, apesar do que consta em dicionários e livros de psicanálise.

Uma das discussões sobre arte que presenciei, dessa vez numa outra disciplina do curso de Letras, definiu mais ou menos que a cada arte corresponde um único meio, unidade ou elemento (não lembro mais o termo). O meio da pintura é a cor, o da escultura é a forma (ou volume), o da dança é o movimento, o da música é o som, o da literatura é a palavra. Segundo esse conceito, haveria um elemento único capaz de definir, por exemplo, o teatro? Talvez não. Aí o cinema nem poderia ser a sétima arte, porque o próprio teatro já não seria arte...

Teatro, então, é performance? RPG é performance?

Eu gostava da definição de arte como techné, e é mais ou menos por esse caminho que segui nos textos do "RPG, arte e o portão da Terra do Nunca".

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Dança, Teatro e RPG

itiro — qui, 31.07.2008 - 09:53

Se eu não me engano, Dança e Teatro estão encaixadas no mesmo tipo de coisa na hora de separar as artes, são as artes performaticas ou algo assim e o meio das duas é o corpo.

Na lista ficou faltando a Arquitetura - estruturas, cinema - filmes.

Sobre techné, me corrija quando eu estiver errado porque estou tentando resgatar coisas lidas há muito tempo e de maneira superficial. Techné é a parte de fazer, praticar, é a contrapartida do conhecimento (episteme?), algo no estilo do "quem sabe faz, quem não sabe ensina".

É por causa desta diferenciação que tem gente que diz que alguém como Caravaggio é um artesão e não um artista, uma tremenda bobagem IMHO.

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Dança, teatro, arquitetura...

mczanini — ter, 05.08.2008 - 15:53

Itiro,

Pelo que era discutido na tal aula que eu citei, entre dança, teatro, arquitetura e cinema, a dança seria uma arte, com certeza, porque é definida pelo movimento. O teatro e o cinema, não, porque precisam de movimento e palavra, por exemplo. Arquitetura: não lembro o que foi discutido, mas, dando um chute, não seria o mesmo meio da escultura?

(Bom, não vou dizer que concordo com essa definição de arte. Era para botar lenha na fogueira, mesmo.)

Vou dar uma relida na Poética de Aristóteles e relembrar direito a idéia de techné.

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Ars

felipekopp — seg, 28.07.2008 - 18:25

Quanto a ser um descendente direto da contação de história e dramaturgia eu tenho quase certeza. Tenho amigos que trabalham de contadores, e eu já estudei muito teatro (quase fiz faculdade), os elementos são muito próximos. O fato de o RPG ser feito em conjunto não o diferencia tanto. Um dos meus dramaturgos favoritos, Heiner Muller, trabalhava com a criação teatral coletiva, isso aproxima ambos mais ainda em suas caracteristicas.

Quanto ao jogo de futebol, como eu li uma vez: "não há como escrever um roteiro mais emocionante do que uma partida de futebol", concordo, mesmo não sendo o maior amante de futebol, eu respeito sua potencia. O termo catarse é controvérsio, mas aqueles que não aceitam que ela seja possível em uma partida tbm não concideram o futebol como uma arte (e ele na maioria das vezes é).

Ai chegamos em outro ponto: o que realmente é arte???

É assunto polêmico, muito polêmico, mas uma refreção mais aprofundada pode responder a outra questão: rpg x arte.

Acho que vou esperar vc escrever mais sobre a sua concepção do pq o rpg é uma arte, acho que ela é diferente da minha e ficaria feliz em conhece-la. 

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Sugestão 1.

Ricardo — qui, 24.07.2008 - 14:25

Hmm... talvez apontar os passos no desenvolvimento de uma sessão de jogo desde o princípio do princípio (criação de personagens? criação do enredo/premissa?) até o fim do fim ("letreiro final") e dizer quais podem ser considerados arte e quais não. Ou isso ou objetivamente apontar o que não é arte no RPG.

Acho que (suspeito que) nem tudo dentro do jogo possa ser chamado de arte. Então apontar o que não é, é uma alternativa.
Se isso não significar ser "inartisticamente objetivo". hehe

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Para mim RPG = jogo, narrativa e performance

Ana_Fiori — seg, 28.07.2008 - 18:56

Bueno, antes de julgar o "mérito artístico" do RPG, seria necessário estabelecer o que se entende por arte. Arte é um conceito que passou por diferentes processos históricos (assim como o conjunto de valores que se entende no Ocidente por "estética") e que tem diferentes conotações políticas...

Eu gosto da sugestão do Ricardo de analisar o RPG em diferentes etapas e não só no momento da mesa de jogo. Tanto que na minha iniciação científica eu fiz isso usando a Seqüência Total da Performance, de um teatrólogo chamado Richard Schechner. Eu pessoalmente considero que a bagagem cultural que um jogador acumula ao longo de sua vida e todos as aventuras que ele já jogou são como oficinas e ensaios para novos personagens e jogos, e embora pense que o RPG é autotélico, ou seja, é jogado pelo prazer e pelas experiências que o jogo proporciona, acho que ele tem uma dimensão estética transcendente que se torna evidente nos recursos narrativos e dramáticos do jogo mas também a cada vez que um jogador conta de suas aventuras em uma roda de amigos ou um fórum qualquer da net.

Ana Fiori

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Terreno pantanoso

itiro — sex, 25.07.2008 - 08:29

Não vou entrar nesse caminho, e acho que é um beco sem saída, especialistas em arte não conseguem se decidir sobre o que é arte e o que não é, como é que eu vou separar o que é arte e o que não é no RPG.

Além disso, como eu disse no texto, tenho a impressão de que tudo é arte numa sessão de jogo, os elementos separados podem não ser, mas juntando tudo "vira" Arte.

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