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Bestiário da Terra do Nunca (Brasilis)

mczanini — sex, 04.07.2008 - 16:13

Acabei de descobrir uma nova variedade de sininho: é a sininho deslumbrada (com o próprio pseudo-sucesso).

Além das características comuns a todas as sininhos, a variedade deslumbrada não tem um pingo de autocrítica e costuma fazer um exercício de raciocínio reverso para justificar as bobagens que faz.

Por uma circunstância qualquer da vida, a sininho deslumbrada atinge uma posição de relativo destaque: ela passa a ser, por exemplo, colunista de blogue. Seu nome começa a ficar conhecido nas rodiiiiiiiinhas de RPG da internet. Aí o pseudo-sucesso lhe sobe à cabeça. Deslumbrada, ela não demora a colocar na assinatura do e-mail:

"Sininho Deslumbrada, articulista do Bloque XPTO, responsável pelo Universo Negro, Negro, Negro, Muito Negro, Velho e Novo."

Ou algo que o valha.

Ela acha maravilhoso essa coisa de digitar o nome dela no campo de busca do Google e encontrar várias páginas de internet nos resultados. E é aí que acontece um salto fantástico de raciocínio: "OK, agora eu sou famosa, tenho uma posição de destaque, sou uma celebridade. As celebridades formam opiniões, e da mesma maneira que eu sempre paguei um pau para as opiniões das celebridades da TV e da internet, agora os outros também vão aceitar as minhas opiniões sem pestanejar. Porque eu sou uma celebridade, eu não posso estar errada. Se eu publiquei tal coisa, então tal coisa tem de estar certa."

A partir daí, a sininho deslumbrada recorrerá a essa lógica adolescente para justificar seus acertos e, infelizmente, também suas falhas.

Por exemplo, ela escreve um artigo sobre um RPG que está para ser lançado em português. Ela ainda não leu a edição brasileira (pois o livro nem está nas lojas), mas isso não é problema. Ela conhece bem o original em putriolês (o idioma oficial da Zumbilândia). Ou ao menos acha que conhece. Ao escrever o artigo, ela vai confundindo os termos e as definições do RPG que ela tem de resenhar com os termos e as definições de um RPG anterior da mesma editora zumbilandesa, que, esse sim, ela jogou durante muito tempo. Tudo bem. Quem é que vai reparar nas discrepâncias? RPG zumbilandês é tudo igual. Bom, como a sininho deslumbrada não teve acesso ao RPG em português, ela foi traduzindo (ou relembrando) os termos de cenário e regras da maneira que achou melhor. Mas, vejam bem, ela não estava redigindo um artigo sobre o RPG original, em putriolês, e sim sobre a edição brasileira do tal RPG. Por causa desse pequeno detalhe, o artigo (coitadinho!) nasceu fadado a ser menos do que poderia ser, e, pior ainda, a prestar um desserviço ao leitor do Blogue XPTO, que acabará lendo a resenha do livro errado. Se fosse honesta, a sininho deslumbrada explicaria aos leitores que havia resenhado o original, e não a tradução, mas pelo jeito nenhuma sininho acha a honestidade intelectual uma coisa importante.

Para continuar o exemplo, muitas pessoas lêem o artigo da sininho deslumbrada e algumas percebem que algo não cheira bem. Pronto. Aparece um cidadão comum que tem a audácia de questionar se a sininho realmente leu o livro em português e, para fundamentar sua dúvida, comenta: “Achei estranho que na resenha apareça o termo “Carinho” como tradução de “Hmmmmmrrrrrrrriiiiiiiaaaaaah”, que significa “Serigüela”. OK, serigüela é uma palavra esquisita, mas é a única acepção possível para o termo em putriolês. E, convenhamos, serigüela e carinho são coisas bem diferentes. Será esse o termo usado na edição brasileira?”.

E, agora, a cereja do bolo: a sininho deslumbrada responde a pergunta do nosso cidadão comum. “Na verdade, o termo na edição brasileira é ‘Serigüela’, mas é que eu me permito seguir o exemplo dos grandes autores e busco sempre a palavra que soa melhor a ouvidos brasileiros. Serigüela é muito esquisito, e por isso achei melhor traduzir por carinho.”

Your Honor, I rest my case...

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Essas sininhos sapecas...

Anonymous — ter, 08.07.2008 - 19:04

Como diria Umberto Eco... "quase a mesma coisa"... kkkkk

Eu que não queria traduzir livro de RPG

beijos
Ana

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Traduzir RPG

mczanini — qua, 09.07.2008 - 17:10

O engraçado é que a primeira vez que me desafiaram a traduzir literatura e poesia, eu senti minhas veias congelarem de medo... Do público-alvo, composto basicamente de acadêmicos. Achei que ia ser massacrada. Bom, não fui.

Mais engraçado ainda: até hoje, não vi nenhum RPgista criticar um dos termos que eu realmente tenha traduzido errado... Vai entender...

Acho que a gente, por jogar RPG, acaba desenvolvendo uma relação de posse com a terminologia. Talvez não seja só uma questão de acostumar o ouvido com este ou aquele termo. Talvez seja algo como: "É assim que falamos na nossa mesa; temos uma relação de carinho com o termo, ele faz parte da nossa vida; não venha você aí, só porque a sua tradução foi publicada, nos dizer que termo usar". Como explicar para essas pessoas que o tradutor não tem essa pretensão? Que é simplesmente uma questão de que alguém vai ter de responder pela tradução oficial?

Cheerio,

  • responder

Aberrações.

Ricardo — qui, 10.07.2008 - 16:02

O "estrupada" na tradução de Castle Falkenstein pode ter sido erro tipográfico, se o correto for equivalente ao original (não verifiquei), mas sendo ou não, jamais perdoarei o(s) responsável(veis) por colocar (e/ou deixar passar) isso.

Um livro tão elegante deixar passar um erro feioso desses...

  • responder

Deflorando um livro

ze — sab, 12.07.2008 - 13:52

Ricardo,

 

Em qual página aparece o termo citado? Não lembro ter visto.

  • responder

O erro.

Ricardo — sab, 12.07.2008 - 15:20

Não sei se aparece em outras páginas tb (espero que não), mas tá logo no começo, na parte que fala da Marianne. Página 16, no meio do terceiro parágrafo:

"[...] O momento decisivo na vida de Marianne aconteceu quando ela tinha dezesseis anos, e o filho de um nobre parisiense tentou estrupá-la ameaçando-a com uma faca e ela o estripou como recompensa."

  • responder

Restituindo a honra do livro (sem duelo)

ze — sab, 12.07.2008 - 19:43

Obrigado, realmente está correto, mas devo reproduzir esta parte no original, que também está na página 16.

...The turning point in Marianne's life came at sixteen, when tho son of a local Parisian noble tried to rape her at knife point...

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